Entrevistas

Entrevista com Gabriel Lins

Gabriel Henrique Lins é Neurocientista, pesquisador do grupo de Neurodinâmica da UFPE e do grupo de Neuroimagem do Hospital das Clinicas da UFPE. Tem como foco de pesquisa a neuroplasticidade e o desenvolvimento de novas tecnologias biomédicas. Atualmente trabalha em duas vertentes, Neuromodulação in vitro utilizando nanopartículas e com inovações terapêuticas em humanos, utilizando EEG, PET-SCAN e RM. Também tem interesse em interface cérebro-máquina, protocolos de estimulação neural e Neurofeedback. Presidente da Liga Acadêmica de Neurociência Aplicada (LIANA), Membro do Instituto Brasileiro de Neurociência Aplicada (IBNAP), CEO da empresa de consultoria e divulgação científica Sinapse e CMO do estúdio Sircrux.

Quando o paciente sabe que deve procurar um neurologista, é necessário a procura apenas quando se sente incômodos físicos, como dor de cabeça ou enxaqueca?

Uma questão importante a se levantar nesse ponto, é o quanto de dor uma pessoa classifica como incomoda? Ou mais ainda, o quanto se esperar para procurar um atendimento clinico? O quanto justifica? São questões de referência pessoal. Deve-se procurar um neurologista quando a dor for intermitente, latente ou ainda principalmente sem razão alguma aparente. Dor causada por muita exposição solar, momentos de estresse ou por má alimentação, são comuns, mas dor forte sem fonte aparente, é algo que necessita uma investigação. Porém, mais importante do que dor, para fazer uma pessoa procurar atendimento neurológico é notar que seus referencias não estão iguais a de outras pessoas. Se você costuma confundir a leitura de textos, que seus amigos leem sem problemas. Se sua visão periférica tem uma falha, ou ainda algo do modo como você interpreta o mundo difere de todas as pessoas ao seu redor. Como por exemplo não conseguir diferir se um carro que vem em sua direção está longe ou perto. É a hora de procurar um atendimento.

Entre seus pacientes no estado de Pernambuco, é possível reconhecer quais as síndromes e disfunções são mais comuns de se diagnosticar em crianças, se sim, Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma delas?

O diagnóstico de TDAH é comum, entretanto como exames quantitativos e qualitativos são muito caros e necessitam de profissionais extremamente especializados. (Humberto Quintana et al, 2007. Mehran Ahmadlou, Hojjat Adeli, 2010). A maioria deles é feito a partir de questionários que utilizam como referência comentários comportamentais de família e professores, que não costumam ser muito precisos. Então um problema real são diagnósticos falso-positivos e falso-negativos (Josep Maria Tous Ral, Liudmila Liutsko, 2014). Em que a agitação natural da criança possa ser confundida com TDAH ou vice-versa. Portanto, é sempre importante lembrar que os sintomas devem permanecer por pelo menos durante 6 meses e serem nitidamente inconsistentes com a idade do indivíduo. Um estudo mostra que de 2002 a 2007 a incidência do diagnóstico triplicou, principalmente entre indivíduos com idades entre 18 e 24 anos. E com a atualização do DSM-V e a inclusão oficial de adultos no espectro diagnostico essas proporções de indivíduos só deve aumentar, tornando-se talvez uma alteração comum em que seja algo adaptável de se resolver que nem por óculos para quem tem miopia. Afinal, criatividade e espontaneidade são marcas bem comuns de pessoas com tdah e certamente nem todos irão querer abrir mão delas.

Quais discussões que você acredita que devam ser adotadas dentro das escolas para perceber e orientar alunos que possam ter TDAH?

As crianças e adolescentes com o transtorno estão sujeitos a apresentar problemas na esfera social, interpessoal e intrapessoal, tais como: baixa autoestima, conflitos familiares, problemas de relacionamento entre iguais e conjugais (Biederman et al., 2012; Vaquerizo-Madrid, 2005), maior probabilidade de envolvimento em acidentes automobilísticos, práticas sexuais de risco, uso de substâncias ilícitas, comportamentos antissociais, entre outros. (Barkley & Cox, 2007; Froehlich et al., 2007; Polanczyk et al., 2014; Ranby et al., 2012) Ou seja, o debate é algo que deve ser feito no decorrer de toda a educação de forma generalista e não excludente. Pois os mesmo argumentos também servem para todos e reforçam medidas de segurança mental e física.

 

Gabriel Damazio

Graduando em Comunicação Social com ênfase em Educomunicação, técnico em Informática para Internet, e ainda participante em pesquisas na área de modalidades de ensino.

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